Existem certas coisas, sobre as quais não podemos falar.

Por exemplo, não podemos descrever a música. Por isso, a maioria dos artigos dos críticos musicais nos jornais parecem completamente absurdos. Quando tentam representar em palavras o desempenho de um artista, pegam emprestado termos de outros tipos de arte e tentam mostrar que entendem muito do que estão expondo. Mas não existe uma maneira pela qual um crítico musical possa, através das palavras, fazê-lo ouvir os sons de um concerto.

Contudo, escrevendo-se determinadas instruções no papel, explicando certas coisas que devem ser realizadas, estes sons podem ser reproduzidos. A notação musical é, essencialmente, um grupo de instruções (assim como “desenhe um círculo” ou “desça uma perpendicular”.
Então, se você seguir essas instruções compreenderá as coisas que não podem ser descritas.

A yoga é isso.

Todos os ensinamentos místicos são na realidade instruções. Não são uma tentativa de descrever o Universo, Deus, ou a realidade última. Todo místico sabe que isso é impossível de ser feito.
A própria palavra misticismo deriva da palavra grega myein, que significa guardar silêncio.

Fique em silêncio, e você compreenderá por que as instruções devem ser ouvidas, vistas.
Pare, olhe e ouça – e veja o que acontece – isso é yoga. Simplesmente não fale

Não fale
para não estragar tudo.

Alguém foi até um mestre Zen e perguntou:
“As montanhas, as colinas, e o céu, são todos o corpo de Buda?”
E o mestre respondeu:
“Sim, mas é uma pena que eu tenha que te dizer isso...”
Sinto que não sou normal como os meus colegas do escritório (ou do scriptórium, talvez fosse melhor dizer). Olhando atentamente para eles e para outros funcionários do prédio, quando ficamos presos no elevador, e ouvindo seus papinhos de aranha em forma de clichê, sinto vontade de vomitar. Que gente escrota! Fedorentos! Não quero ser assim. Nunca! Jamais! Prefiro ser essa Metamorphosis Ambulants do que ser aquela velha formada em demagogia. As pessoas se apresentam o tempo todo como simples selfs falsos; cascas de uma ferida que já não sangra, não chora; um lugar comum onde não há mais vida. A semana passada disse isso a uma psicóloga que trabalha no 5º andar, e ela me falou para comer um pouco de chocolate. Sinceramente - pensei, olhando bem para ela, para aquelas suas perninhas magras de barata, para o tailleur formal que ela usava, para os seus sapatinhos vermelhos e os pés inchados; prestei atenção à minha respiração por uns trinta segundos, e depois pensei “Ora, vai se foder!”; mas, educadamente me contive, sem sentir qualquer prazer, e apenas lhe respondi que era alérgico a amendoim, e que a maioria desses chocolates tem, no mínimo, era só ela ler a relação de ingredientes no verso da embalagem, algum traço de amendoim, ao que ele me respondeu: “Garoto não. Você não gosta de Garoto?” Daí eu pensei em sair correndo, mas o elevador ainda se deslocava entre o 5º e o 4º andar como que descendo em uma mina de carvão, e eu apenas olhei desesperado pela pequena janelinha na porta, observando a parede suja e pichada do fosso, que passava lentamente como um filme em branco e preto. Inclusive, escrever esse texto agora, me aborrece profundamente, mas é o que eu preciso fazer para não explodir de vez, ou talvez. Ou quem sabe haja algum terapeuta mais competente no Universo? Um terapeuta que tenha cérebro, alma e um mínimo de criatividade, e pena de mim, ou que me jogue pela janela, e depois se dirija até o lavabo e esfregue as mãos, como acertadamente fez Poncio Pilatos. Preciso urgentemente fazer alguma terapia, do-in, Yoga, Tai-chi-chuan, Pilates, salto ornamental, salto com vara, sei lá o que, qualquer coisa que me dê alegria por alguns segundos, alguma ideologia. Hoje cedo, 40 anos depois de ter acordado, porque teria sido impossível fazê-lo em sonho, passando a mão pelo queixo, diante do espelho imóvel no banheiro, examinando meu cavanhaque já meio grisalho, com ar de Gremlin, pensei: “É bem possível que eu esteja mesmo envelhecendo com uma sujeira nos olhos" como sugeria aquele email cheio de logotipos dos anos 60, 70 e 80 que me mandaram a semana passada. Era também óbvio que eu escrevia fazendo uso de um vocabulário limitado, uma comunicação restrita, um circuito fechado de palavras lego, como um jogo do caralho, cartas marcadas, um blefe, truco! Sim, eu era os Meninos Que Peidavam sem parar na Lan em Sumaré, como dois Opalas sem freio fazendo drift pra cima daquelas bostas de Stonehenge na calçada Meus olhos estão ficando molhados, meu coração palpita, minha respiração se torna insuficiente e eu não consigo mais, não quero, não faz sentido ficar assim escrevendo para todo o sempre, amém;(

KIMBAÇO (668)


Estou pagando com juros todos os meus pecados, pilotando contra o vento uma Ferrari em forma de papel. Você não os tem? Ha ha ha! Eu também pensava assim, até que, com o passar do tempo, olhando para trás, pelo retrovisor, pude perceber o quão tolo, e às vezes até cruel, havia sido; quantos passarinhos havia derrubado do muro da casa do Sr. Rodney com minha espingarda de chumbinho. Mas te peço, pelo amor de Deus, não creia em mim, nessas palavras rudes; não pense que elas foram preparadas no forno, ou que sejam um código, regras, afirmações; pois, em verdade, são apenas como flores que se abrem, aqui e ali, resplandecem, e depois murcham. E te digo mais, não são, em essência, diferentes das rosas, dos lírios, e nem das orquídeas, ou mesmo daquelas florzinhas roxas que surgem naqueles pequenos trevinhos que brotam ao pé dos muros, ou até mesmo nas calçadas aqui no Centro da cidade. Não têm necessariamente qualquer importância ou valor, desde que você não as arranque daqui, é claro, e as coloque num vaso para enfeitar sua sala, ou em seus cabelos alisados a ferro. Eu já fiz isso antes também, mas, te aviso, não deu certo. Brincava com tatuzinhos e joaninhas num jardim repleto de margaridas na Rua Hortênsia, nº 9, no bairro do Mandaqui; ficava horas sozinho, distraído, comendo umas bananinhas azedas que pendiam atrás das folhinhas dos tais trevinhos junto à mureta.

E tudo ia bem, mas passou a dar errado depois que eu parei de brincar de cabaninha e entrei, guardando a espingardinha atrás da geladeira, e liguei esse computador, que, na verdade, não é um computador como aqueles que eu via nos filmes de Perdidos no Espaço, quando ia à casa dos meus primos. Quando criança, diziam que o mundo se acabaria no ano 2000; já estamos em 2015 e essa porra ainda não acabou; talvez por isso esteja esse caos.

Assim, apenas tanto quanto possível, pretendo estabelecer, ou pelo menos praticar um outro padrão de comportamento com estes blogs, bem assim com a escrita, e com toda realidade ao meu redor; e não esse padrão que aí está colocado: cego, dominado por falsos selfs e interesses mesquinhos, imediatos, menores. Também não um padrão alegre, tipo auto-ajuda, artificial, utópico, como se eu fosse o cover de algum Smilinguido, o que, a meu ver, também é sinal da presença de um falso self no controle do ser. Mas sim, o meu próprio Padrão Z, completamente abestado, trêmulo, vibratório... porque a mim não faz sentido, ou melhor, esse não é o meu propósito, ou seja, a transmissão de dados ou a aquisição de pensamentos, formas determinadas de informação e conhecimento em áreas específicas como Filosofia, Psicologia, Religião, Educação, Moral, Ética, e outras, se esses mesmos conhecimentos não puderem ser traduzidos, não estiverem inseridos, conectados, ou não fizerem parte da minha realidade imediata e cotidiana, ou seja, da minha vida. Não me interessa, pois, a aquisição de conhecimento com algum outro propósito, que não o de aplicá-lo ao meu proceder. Não estou a fim de ficar exibindo conhecimento como se fosse algum tipo de carteirinha, crachá ou cartão de visitas, cagando ideias. Nada disso faz parte da minha personalidade. Prefiro, então, dialogar em silêncio com os pássaros.

O computador tem sido útil, mas ainda é muito lento, comparado à velocidade do pensamento. Por isso, gosto de ter sempre ao alcance das mãos um bom lápis, bem apontado, e uma folha de papel em branco; acho mais eficiente. Ouço agora os sinos da Basílica do Carmo, e isso me enche de alegria. Há uma enorme distância entre o que eu penso, o que posso digitar, e a Igreja.

Olhando por uma fresta na porta da cabaninha, posso ver parte do mundo lá fora. Darwin precisava ver isso. Já há quase mais de 100 macacos! Mais alguns anos, e todos nascerão com penas, e correrão pelas ruas como galinhas, tentando voar.

Entram em shopping centers, aceleram Plymouths Cuda, Fuscas, bicicletas, rats, Vipers; soltam rojões e cantam cada qual seu hino.

Além de usar sapatos marrons, sujos de merda, e com os saltos gastos, o Sr. Rammster é uma pessoa extremamente chata e confusa; penso que ele deve ser um sujeito muito infeliz, e de um gênio irascível e, talvez, até um tanto quanto violento, ou estúpido em sua vida privada (de prazeres). Entretanto, como pretende saborear o delicioso doce de abóbora com coco ralado e cravo da Índia, preparado com carinho pela dona Leda, ele sabe bem como se comportar;  modela então o tom de voz ao falar com ela; controla até mesmo os gestos e as expressões faciais, forçando sorrisinhos, vomitando elogios, em seu contato diário com os funcionários do manicômio. Ah, Sr. Rammster (!); sempre dirigindo pelas ruas da cidade seu reluzente veículo cinza importado. Ele também se veste sempre de forma muito elegante, e parece até um pouco um gay italiano.

Como em meu mister eu precise escrever tudo corretamente, com acentos, vírgulas, crase, aqui me reservo o direito de escrever tudo errado, quando quiser; apenas para relaxar e desmistificar um pouco esse ato pré-histórico; precisava hoje me comportar de forma diferente de ontem, mas continuo a repetir os mesmos erros, padrões de ontem, como se tivessem sido pré-programados pela N.Sra. do Cromossomo X com cheiro de pimenta do Reino das Testemunhas de Jeová.

Lá vem os Cães Vadios novamente...

Estava sentado numa poltrona no salão de espera de uma agência bancária Satã Dear, quando um sujeito com expressão gasta e cara de cogumelo me olhou de forma estranha e, na lata, sem qualquer cumprimento ou apresentação, me perguntou as horas. Devo ter cara de relógio - pensei. Um outro, parou em frente ao painel eletrônico de chamada de senhas, e ficou de costas para as pessoas que estavam nas poltronas, mais exatamente bem na minha frente, e ficou falando num celular; talvez pensasse que eu tivesse visão infra-vermelho; outro, sentado logo atrás de mim, ao cruzar as pernas, sem querer, creio, chutou meu cotovelo direito, derrubando sem perceber meu volume de Meditações Criativas do Allan Watts. Nesse momento, a mulher magra e de cabelos loiros do caixa 3 gritou com voz estridente e esganiçada “senha 666!”. Ainda bem que não sou eu – pensei novamente. Eu era o 668.

Algumas pessoas são belas, mais que belas; são como árvores de Natal, cheias de brilho e bolas. Outras, não sabem escrever, falam e desejam impor suas ideias as que também são belas, porém, tolas e simplórias como a relva, e que não escrevem, sobre nada falam; apenas pensam, de forma brilhante. Outras são bobas, e escrevem tudo errado.

Não sei como isso se processa, se soubesse, poderia tranquilamente, sem qualquer modéstia, ser elevado à categoria de um Freud ou de um Reich, ou seja, poderia considerar-me um verdadeiro louco, daqueles que ficam martelando pregos na varanda ao anoitecer, ou conversando com as formigas pela manhã, ao varrer as folhas secas, caídas no quintal de terra.







A vida segue uma cadência
A vida é um doce
Doce decadência...