Tenho me sentido arrasado. A realidade ao meu redor parece um lixo; diferentemente do espaço que minha mente um dia idealizou, ao longo desses 50 anos, para se deslocar; um lugar simples, humilde, mas organizado, asseado, onde eu pudesse curtir arte, criar peixinhos de aquário e sonhar. Mas agora nada posso fazer para mudar isso. Talvez não haja nenhum lugar onde eu possa ir ou estar que não esteja um caos. Talvez eu é que esteja delirando e não me adapte às circunstâncias adversas.
O sonho acabou e o pesadelo parece não ter fim. Durante muitos anos fui apenas mais um idiota normal, mas agora que a madrugada chegou, não sei para onde ir. Não sei para onde todos estão indo. Só sei que não quero ir. Não sei quem é meu amigo.
Uma vez, um a um, todos se foram, e eu fiquei só, ali no quintal, olhando para a minha Banana-Warhol descascada, tendo pensamentos convergentes, sentindo cheiro de mamão papaia.
Dois anos antes, àquele mesmo horário, estava na pia da cozinha lavando a louça do almoço, olhando as flores através da janela, quando de repente um frio estranho me subiu pela espinha, e então eu percebi que, naquele instante, havia me transmutado num ser horrível, um homem vermelho, de meia idade e sem sapatos. Ainda não havia o Monstro à Pilha que agora queria copular comigo.
Eu poderia ter parado de escrever naquele exato momento, que tudo o que eu escreveria a seguir, ou poderia um dia escrever (até a eternidade), já estava de certa forma "escrito" nas entranhas da realidade ilusória do outro lado da janela.
Finalmente conseguira me projetar num personagem que não me desagradava sob nenhum aspecto.
Seu nome é WILL. Pesa cerca de 1440 ou 2440 alguma coisa. Disse que iria destruir tudo. Tinha dois kibes amanhecidos enfiados na cabeça e vivia me perguntando: "O que você vê quando se olha no espelho?"
Seu nome é WILL. Pesa cerca de 1440 ou 2440 alguma coisa. Disse que iria destruir tudo. Tinha dois kibes amanhecidos enfiados na cabeça e vivia me perguntando: "O que você vê quando se olha no espelho?"
Respondi-lhe que ninguém gostava de mim. Disse que, também pudera, sou mesmo um cérebro afetado de anfetamina. Pela manhã, entrei no carro e liguei o motor.
Fico olhando para o pára-brisa rachado, sem pensar em nada. Ouço apenas os passarinhos cantando no telhado do vizinho. KAO - Minha paranóia estava sorrateiramente me afastando das pessoas que me amavam de verdade, mas que não tinham a mesma educação que o velho Chico havia me dado.
Era como viver entre sacos de lixo.
Era como viver entre sacos de lixo.
