Evangelik Sistems





O corpo é a expansão da Mente. Somos apenas aspectos da expressão da Mente Divina.

Uma Mente Cósmica que se aloja,  se estabelece, a cada segundo, que se individualiza, decompondo-se em partículas ínfimas, inimagináveis, de Vida/Energia/Consciência num buraco de minhoca (aspectos). E, ao mesmo tempo, alçamos voo rumo ao Todo, ao que é macro, e não nos cabe aqui ficar significando. Não foi para isso que o nosso cérebro foi criado. Para nós existem as cores, as formas primárias e o perfume das flores. Neste momento presente, só isso importa. O resto é pura especulação, metafísica primata.

Na rua, outro individuo com aparência indígena me faz lembrar um irmão mais velho, que tinha os dentes estragados e sorria, acenando para o motorista do ônibus. Penso então que posso ser descendente de alguma tribo Tupi-Guarani, que agita minha memória num Estado Tecnológico árido e sem peixes, iluminando a folha de papel com frases desconexas. O ônibus faz a curva e os passageiros permanecem imóveis e em silêncio. Em determinado ponto do trajeto sinto o cheiro de erva queimando. Pura percepção. Isso é tudo o que somos. Ouço "Monk Hang Ten" no walkman, e quase mijo nas calças de tanto prazer.

Isso me faz lembrar de uma tarde, numa sexta-feira Santa, em que eu corri pra caralho. Tinha ido fumar num bosque, ao lado de um lugar chamado "Rua da Linha", em Santa Therezinha, atrás de uma Igreja Católica; uma imensa área verde, com árvores frondosas, onde eu ingressava escalando um muro bem alto. Para mim, aquele lugar era o próprio Paraíso. Ali eu ficava horas entre as borboletas, trepado num galho, respirando aquela fumaça mágica, acompanhando o movimento das folhas que caíam das árvores. Eu já estava quase flutuando como um anjo. Imaginava o perigo que corria ao sair dali e dar de cara com uma patrulha, que não raramente passava lentamente pela rua, no exato momento em que eu saltava do muro, de volta para a realidade construída.

Nada à vista. Sem saber exatamente porque, naquela tarde, saindo do bosque, perambulei até a igreja, que estava deserta, e ali me enfiei; talvez atraído pelo silêncio ou pelo clima transcendental.

O lugar estava completamente vazio. Pensando ainda sobre o que as borboletas haviam me contado, caminhei distraído por entre os bancos de madeira, e já me dirigia para a saída quando, num canto à esquerda, algo depositado no solo e encoberto por um véu branco, parecendo emitir uma onda eletromagnética, ou um vaporzinho do além, me chamou a atenção. Logo eu percebi, na iluminação tênue, que se tratava de um corpo, um homem seminu e imóvel. As canelas finas e secas pareciam duras. De pronto, aquela visão me causou um tremendo horror e remorso, me deixando num estado de pânico cataléptico, de modo que eu mal podia respirar. Imaginei que se tratava de um indivíduo morto, vítima de algum homicida cruel e desaparecido. Seria o padre Nelson? E eu ali; ainda por cima com aquele tufo no bolso. E se a patrulhinha surgisse? Seria cana na certa; não teria nem o que argumentar. Saí dali correndo, e só consegui retomar a respiração já perto de uma estatueta da bendita Santa, no meio da praça em frente.

Nessas horas meu ego se infla e eu cago nas calças pra esquecer as mágoas, mas nunca sou, ou penso, de maneira hiper-realista como aqueles hipócritas de plantão que freqüentam velórios e ficam como santinhos do pau-oco, com bíblias encapadas nas mãos, junto aos pés do morto, aproveitando-se da triste situação das pessoas ali presentes, todas muito deprimidas, falando a elas um monte de mentiras e besteiras.

Vou até o banheiro e olho pela janela. Saio pela porta dos fundos. Quando eu morrer, por favor, não permitam (aqueles que me amam de verdade), que esses fariZeus de última hora, religiosos de toda espécie, digam, ao meu redor, uma só palavra sobre o Desconhecido. Se não quiserem ser indelicados, então, por favor, explique ao falso profeta que, agora, morto, nada mais ouço; que meu cérebro e meus sentidos estão desligados, mas que talvez meu espírito, alma ou mente, ainda possa se comunicar diretamente com o Ser Superior. Podem ainda dizer a tais fariseus que, se mesmo assim, eles quiserem falar algo sobre o deus particular deles, poderão falar-lhes em outro local, numa outra ocasião, mas não permitam, em hipótese alguma, por favor (!), que abram suas bocas de lobo ali, ao lado do meu corpo imobilizado. A mim, agora, apenas o Silêncio Eterno pode contentar, a luz do dia, o brilho das estrelas, a escuridão da noite, o som das ondas batendo de encontro aos rochedos, o vento, as cores, ou mesmo o voo desastrado das baratas.

El oyo del diablo rojo.
Obrigado por me deixar entrar em seu olhar
Obrigado por me deixar andar em seus devaneios
Obrigado por me mostrar os seios
O caminho do meio
Obrigado por me odiar tanto em seu desequilíbrio.

Sei bem que, pra você, sou uma figura barroca, de terracota, que ando torto, batendo portas, trombando contra as paredes. Mas fique sabendo, eu tomo banho todos os dias sim, e também lavo os meus cabelos cacheados com aquele xampu de florzinha. Andando solto em seu ambiente, batendo as patas contra as paredes brancas dos gabinetes de homens cultos e insensíveis. Por isso me sinto meio puto. Estou sofrendo muito no meio dessa corja, convivendo com indivíduos que representam o caos, as trevas.

Eu só preciso encontrar um meio termo para ser feliz. Tudo muito certo, muito tecno sem meu crucifixo cravado no peito. Quando coisas dessa ordem vem do lado de lá, de pessoas pelas quais meu coração se sente atraído, até tiro de letra, mas quando partem de antípodas, aí então é um baque total, um pé no saco. Por isso eu me retraio como um caramujo, e me recuso a falar, a olhar, a compactuar; pois, na verdade tudo isso me entristece sobremaneira.

Sou alérgico, não-católico, catatônico e enérgico; calibrado e equilibrista. Moto e Lambretta. Lembranças enroscadas na ampulheta. E por isso sofro, mesmo sem conseguir ver o rosto da mulher paquidérmica desmaiada, estendida no asfalto.