Esquecer as flores, as nuvens, os pássaros, e viver com as moscas?
Quando voltar ao pó?
aos jogos de baralho depois do almoço?
Ou contar as pulgas na barriga do cão, deitado no cimento frio?
Quando a atitude de viver não será apenas um pretexto
um prefixo, como a voz grave do locutor do telejomal das oito (?)
2ª feira, dirijo-me a câmara de descompressão do outro lado da cidade. Passo pela portaria do prédio e o Vigilante-Porteiro de Cabeça Raspada - VPCR conversa com uma senhora morena de cerca de 35 anos de idade (aparência de 50), com cerca de 70 quilos (aparência de 80), olhos pretos (com aparência de descoloridos), e sorriso abobado (com aparência de estar faltando dois dentes incisivos na arcada superior). Primeiramente, vejo-a pelas costas. Seu traseiro tem um aspecto retangular- protuberante e abaulado, e um tanto amassado também, o que me faz lembrar a traseira de um Lincoln Continental. Os braços caídos rente ao corpo, traz na mão direita uma sacola de papelão preta, tipo camelô-fashion, com a inscrição "Deus é Fiel". Passo pelos dois e percebo que conversam sobre o relacionamento homem-mulher. Ouço de relance a mulher dizer: "... O homi quer chegá em casa todo dia e batê na muié, e preguntá se tem janta...". Ao que o vigilante emenda num tom irônico e debochado: "... mas isso é bíblico...".
Caminho agora pelo corredor estreito em direção aos fundos do prédio, afastando-me daqueles dois. Já quase alcanço o elevador, quando o vigilante, saindo até a porta do prédio, rindo, me indaga à distância: "Não é mesmo, WILL? O home num tem mesmo o direito de batê na muié todo dia?”. Vejo sua silhueta, agora diminuída, afastando-se em direção à porta, e apenas faço um gesto, erguendo e descendo o braço direito como se açoitasse uma vítima subjugada. Em seguida respondo que sim, que devemos bater na mulher nossa todos os dias, com o chicote da Tiazinha (de preferência). Na verdade, não acho nada disso. Podemos, quando muito, bater no Tribufu, neste sim, todos os dias. Mas falo aquilo apenas para completar o sarro que o vigilante tirava da coitada. A mulher paquidérmica me olha estarrecida e desmaia seu corpanzil na calçada em frente ao prédio. Ouço sirenes; do outro lado da rua, uma equipe de resgate se aproxima.
Entro rapidamente no elevador e vejo que não estou só. Acabei de almoçar e sinto um vento frio percorrer o lado direito e inferior do abdome, como um pássaro que procura a porta da gaiola.
No pequeno elevador que se movimenta aos solavancos, estou acompanhado da psicóloga de olhos azuis e seu motorista idiota de 2 metros de altura com cheiro de patchuli.
Vejo minha vida passar na janelinha do elevador e minha língua entalada numa latinha de Fanta uva. Meus olhos piscam oito vezes por segundo, e meus dentes riem ao som de uma música de banda, que um office-boy ouve em seu pocket-disk. Eu poderia novamente tentar morrer ou dividir com todos meu drops Dulcora durante a viagem até o 5° andar, mas me lembro do pãozinho de queijo que comi na lanchonete, ao lado da casa lotérica.
Chegamos agora ao 4° andar. Olho para baixo e vejo meu rastro luminoso subindo com sofreguidão as escadas, ainda no 3° andar, arrastando-se por degraus úmidos e rachados, com cheiro de urina de rato contaminado e essência de jasmim.
Kibes morrendo e jilós correndo na barriga da perna. Fim dos Tempos, dos relógios quasares; minha língua limpa o esgoto da sua alma e cicatrizes azuis brotam atrás dos meus olhos de porco. Queria estar chegando de trem em uma estação em Bombaim, mas já perto do 6° andar me aproximo ainda mais das pessoas estátuas e me vejo refletido em seus olhares reptílicos, voando em círculos concêntricos num céu esverdeado e penso se um dia também estarei Lá. Caio em seguida no carpete de borracha para catar minha bala e a tinta preta mancha o meu rosto. Não tomei cuidado. Tranquei a mosca dourada amiga, que confiou em meus movimentos de anjo, no saco de lixo cheio de merda e cascas de mamão. Concluo: "Não, nunca estarei lá", cê tá ligado?
DESCENDO AS ESCADAS
Will quer cagar um Velotrol, um velocípede, no auditório, no quintal
Will é um velociraptor, um espectador esperando o T-Rex voltar.
Vejo sua sombra sanguinolenta deslizando pelas paredes amareladas
e meu coração bate velozmente como um bumbo furado.
Arranco os cabelos da alma e aperto o tubo de pasta de dente contra o peito
sufocando no banheiro minha respiração ofegante.
Will quer tragar, tomar um sal-de-fruta e ver tudo flutuando no horizonte distante.
Escrevo uma pequena distorção que a ignorância da minha mente caótica decifra, ouvindo palavras vazias e distantes, vindas do além.
Will quer cagar um trombone, cantar no microfone, e não apenas ficar na caverna, contando baratas envernizadas, que andam pelo teto.
Não precisa desligar, escrever palavras mágicas com acordes do arco-íris, enquanto do outro lado da janela tudo em algarismos romanos, para enganar as pessoas que ficaram sentadas na calçada, esperando o foguete para a Lua, homens-rato que apodrecem na lama da insensatez assassina, escravizando homens-rã, para morrer na estupidez fria dos azulejos de suas igrejas católicas, derretendo os dedos em velas no topo dos edifícios, derramando mijo no Paraíso Invisível.
NA RUA
Santo Maverick!
Fogo em meus olhos!
Sangue em minhas mãos!
Lembranças perdidas na privada de uma caverna-autódromo.
Estou espirrando e gotas de saliva respigam na história em quadrinhos da minha vida.
Tudo poderia não ser esta tarde trágica e chuvosa, desfigurada, desmaterializada, apenas o pano de prato rasgado, pendurado no varal.
Will se levanta, e a marca da sua bunda magra fica estampada na calçada, numa solução furtacor de água e óleo diesel.
Tudo pela memória de Brownning...
