HOSPITAL – QUARTO 1406
Minha cabeça pega fogo. Sinto cheiro de café, misturado ao de algum perfume barato e fumaça de cigarro, que parece entrar pela janela escancarada do 14º andar. As paredes da kit são excessivamente brancas; e eu as evito tocar, para que não sujem. Reza o contrato de locação que eu não posso fixar nelas nenhum prego, feri-las. Meus pensamentos parecem agora propagar o fogo por todo o ambiente. Pessoas simpáticas, mudas, cegas, sobem e descem o tempo todo pelos quatro elevadores do condomínio; ouço apenas o barulho do vai e vem dos cabos de aço, das engrenagens rangendo, e das portas de aço batendo. Vivo agora numa câmara fria de tortura; sinto-me como se estivesse numa prisão, ou internado num minúsculo hospital público; onde não há médicos, enfermeiras, nem outros pacientes, doentes como eu, nem remédio, apenas baratas morrendo com as pernas abertas, sem muletas, nem nada; apenas sofrimento e rosas no vaso sobre a mesa da sala; apenas paredes brancas e a brisa penetrando pela janela do banheiro. Todo ruído urbano e vozes nas ruas lá embaixo não me atingem, não me diz respeito; não me impede de lembrar; de alimentar o fogo, que, aos poucos, consome minha alma Retorno à janela. As estrelas estão lá... piscando. Na verdade, não estão piscando... Apenas estão lá (?) Nós é que vivemos, num “piscar” do tempo. Deus não é algo em que se possa pensar ou acreditar; apenas se vive.
É preciso acabar com toda essa verbalização egóica, todo pensar, todo pseudo-conhecimento enjaulado. Que conhecimento é esse que há no homem, e que se extingue? No alto do Edifício Paraguaçu, da janela do meu bunker, observando urubus no céu, sinto-me como um Hitler dos textos. Você, que é tão feliz e religioso, fale-me mais sobre o sofrimento humano; cruspt!
É preciso acabar com toda essa verbalização egóica, todo pensar, todo pseudo-conhecimento enjaulado. Que conhecimento é esse que há no homem, e que se extingue? No alto do Edifício Paraguaçu, da janela do meu bunker, observando urubus no céu, sinto-me como um Hitler dos textos. Você, que é tão feliz e religioso, fale-me mais sobre o sofrimento humano; cruspt!
Onde jaz uma carcaça, aves de rapina voam em círculo, e descem. A vida e a morte são duas coisas estranhas e bem próximas. Os vivos atacam os mortos, em proveito próprio. Os mortos nada perdem com isso; ganham até, desaparecendo. Ou parecem ganhar; se é que podemos pensar em termos de perda e ganho em relação à vida. Será que abordamos o estudo do Zen com a idéia de que existe algo a ganhar nisso?
Essa pergunta não pretende ser uma acusação explícita. É, no entanto, uma pergunta séria. Onde se faz um espetáculo em torno de “espiritualidade”, “iluminação”, ou simplesmente de “religião”, isso muitas vezes acontece, porque os urubus estão esvoaçando ao redor de algum cadáver. Esse voltear, esse vôo em círculo, esse descer, essa celebração de vitória nada significa ao estudo do Zen – embora possa ser um exercício altamente útil em certos momentos. E até enriquece as aves de rapina.
O Zen a ninguém enriquece. Não há ninguém para ser encontrado. As aves podem vir e esvoaçar em círculo por algum tempo, no lugar onde se acredita estar o Zen. Mas, bem depressa, deslocar-se-ão para outras partes da cidade. Então, quando já se foram, o “nada”, o “Zé Ninguém” que ali estava, de repente aparece. Isso é o Zen. Ali estava o tempo todo, mas os abutres não o viram, pois não era esse o tipo de presa que buscavam...
...Na verdade, olhando para os livros na estante, relendo o que tenho escrito nos últimos anos, e refletindo a respeito do eco que o meu discurso diário tem causado na minha cabeça, e ciente das minhas limitações e atitudes cotidianas, penso mesmo que eu seja um tanto quanto hipócrita, como todos lá fora. E me pergunto: quem não o seria? Ou, quem dentre esses mortais seria menos hipócrita do que eu? Quem seria mais astuto e idiota do que eu, dentre esses mortais?
LAST NIGHT (PATROL) FONDO, PROFANO
Feliz era a dona Leda; a faxineira que se deslocava silenciosamente, subindo e descendo de um andar ao outro no prédio da Gestapo, sempre carregando um balde cheio de produtos de limpeza e uma vassoura de piaçava; sempre pronta a limpar nossas cagadas; e que nunca se importava com o que estávamos vendo o digitando no computador. Depois ela subia até o último andar do edifício, o andar mais alto, e ficava ali quietinha em seu canto comendo uma banana nanica, enquanto os macacos debandavam todos para o bar mais próximo e pediam uísque – “Uísque, por favor! Uísque!”. Não gosto de camuflar a vida como um Rambo; sei que estou sublimando; sei que, bastaria pintar uma gostosa em minha vida, e eu largaria correndo toda essa filosofia estreita e não estaria aqui escrevendo de forma dissimulada para um par de olhinhos famintos do outro lado da linha; um cérebro magro.
Freud estava certo quanto à religião – Bad Religion – Nada me interessa, apenas espiritualidade. Mas, o que me intriga mesmo, é notar que, apenas as pessoas velhas, ou que acreditam ter amadurecido, é que anseiam por um contato com Deus. Por que não as criancinhas? Por que criança não se interessa por espiritualidade, nem sexo? (exceto Jesus Cristo, que começou a gritar aos 13 anos – dizem); por que crianças só querem viver, correr, trepar, jogar bolinhas de gude, empinar pipa, e escutar discos do Bob Marley ou do Rolling Stones? Imagino que, na verdade, a cada segundo, a cada dia, a cada ano que passa, sentimos mais e mais medo da morte; como se estivéssemos sendo comprimidos pelo tempo, com a percepção da aproximação da morte. Então corremos desesperados para a catedral mais próxima, ou mesmo para o pequeno altar ou o barzinho que conseguimos construir num canto lá de casa ou mesmo em nossas cabeças confusas, e rezamos desesperadamente, em grego, em português e até em latim. Louvamos desesperadamente à Escuridão que nos cerca, acreditando ser a Luz. Corro e abro a porta da geladeira e meu pau se ilumina; saio correndo com potes de iogurte Activia nas mãos e não consigo defecar direito, porque tenho um monte de problemas na cabeça. É isso aí, meu irmão. Precisamos parar de fugir o tempo todo da realidade, entrando por portas erradas.
Freud estava certo quanto à religião – Bad Religion – Nada me interessa, apenas espiritualidade. Mas, o que me intriga mesmo, é notar que, apenas as pessoas velhas, ou que acreditam ter amadurecido, é que anseiam por um contato com Deus. Por que não as criancinhas? Por que criança não se interessa por espiritualidade, nem sexo? (exceto Jesus Cristo, que começou a gritar aos 13 anos – dizem); por que crianças só querem viver, correr, trepar, jogar bolinhas de gude, empinar pipa, e escutar discos do Bob Marley ou do Rolling Stones? Imagino que, na verdade, a cada segundo, a cada dia, a cada ano que passa, sentimos mais e mais medo da morte; como se estivéssemos sendo comprimidos pelo tempo, com a percepção da aproximação da morte. Então corremos desesperados para a catedral mais próxima, ou mesmo para o pequeno altar ou o barzinho que conseguimos construir num canto lá de casa ou mesmo em nossas cabeças confusas, e rezamos desesperadamente, em grego, em português e até em latim. Louvamos desesperadamente à Escuridão que nos cerca, acreditando ser a Luz. Corro e abro a porta da geladeira e meu pau se ilumina; saio correndo com potes de iogurte Activia nas mãos e não consigo defecar direito, porque tenho um monte de problemas na cabeça. É isso aí, meu irmão. Precisamos parar de fugir o tempo todo da realidade, entrando por portas erradas.
ONBOARD
Foi horrível a festa no Café Regina. Voltei para casa às 22h00 quase preto, carregado por dois agentes da Gestapo, e quase levei um soco no rosto, só porque adquiri a mania de dizer obrigado e mandar beijos para todo mundo que encontro, mesmo após o mais breve e simples contato, seja para as balconistas gostosas, ou as faxineiras magras, cobradores estressados, carteiros apressados, varredores de rua, ascensoristas, mendigos sonolentos, e até mesmo para turistas que chegam a todo instante, vindos da África do Sul em navios cargueiros.
Sou apenas muito educado, mas as pessoas insistem em gritar comigo e dar murros na mesa, como se eu fosse um tapado e determinar que eu escreva histórias falsas sem pé nem cabeça, cheias de erros de concordância verbal, equivocadas, fora de série, sem a atualização da Língua Portuguesa, sem qualquer estilo literário, o que para mim é uma tortura sem fim. Por isso, há quase 30 anos, meu espírito bufa e leva porradas em silêncio.
Necessário também se faz esclarecer que, com mais de 50 anos de idade, já desenvolvi a minha própria consciência ecológica, não jogo bitucas de cigarro, ou latinhas de bebida pelas ruas, e também não uso sacolinhas plásticas, nem camisinha, porquanto até o presente momento ninguém tenha manifestado algum desejo de fazer sexo comigo, razão pela qual, já nem sei ao certo o que se coloca antes, onde, ou depois da vírgula. Assim, na noite passada tive um sonho assustador. Acordei às 02h00, despertando de um sonho com a mulher A, a qual estava completamente nua e fedia muito e torcia o meu braço, colocando-o para trás; depois voltei a pegar no sono com as duas mãos, mas acordei novamente por volta das 04h30, desta feita despertando de outro pesadelo, agora com a mulher B, que me lambia a testa, como se eu fosse algum tipo de sorvete Ki-Bosta, dando voltas ao redor do meu corpo pedindo para que eu parasse de fumar, não por que o cigarro estava me envenenando aos poucos, não por que me deixava com um cheiro horrível de rato morto na mão direita, muito menos para cumprir a Lei 4012/2009 do Governo do Estado de São Paulo, mas sim, exatamente por que não agüentava mais ficar jogando aquelas bitucas em qualquer canto da cidade, e depois sair de fininho, como se nada tivesse acontecido, escondendo-me dos olhares dos não-fumantes.
The Fumantz a banda de Jazz tocou novamente em Piracicaba esta semana e eu não fui lá para vê-la; que pena; depois do décimo capuccino descobri que posso entrar não só na Basílica de N.Sra. do Rosário, onde há uma porrada de imagens e velas acesas, mas também num Templo Votivo, localizado na rua de trás do prédio onde moro, e ali entrei e notei que se tratava de um enorme templo, só que despojado de imagens de santos mas apenas com vitrais maravilhosos e naves coloridas em tons pastéis e freiras tímidas usando vestes marrons e crucifixos no peito; rezei e só depois voltei ao escritório meio tonto e excitado, já quase preto e carregado por duas orelhas azuladas ao redor dos olhos e cumprimentei o porteiro, Sr. Joaquim, que, distraidamente ouvia uma modinha do Tonico e Tinoco num radinho de pilhas e nem me ouviu ou fingiu não ouvir, porém mesmo assim lhe falei bom dia. Junto à porta do elevador havia uma Mulher Maravilha aguardando, bem à minha frente, sem saber que eu odeio pessoas lentas que se comportam como baratas tontas, porque eu valorizo muito a percepção rápida e correta e não gosto de indivíduos que precisam ser atropelados para sair da frente é fácil e tristeen ao mesmo tempo escrever assim como uma bailarina que patina no gelo a uma velocidade espantosa, acima da velocidade da luz, quando o tempo e o espaço se tornam então relativos, odeio pessoas que se escondem atrás de uma mesa, de um pseudo trabalho, que fogem da vida e falam belesmas ao telefone e riem batendo punhetas mas não choram, não mandam beijos como eu.
Aliás, não gosto de dizer isso de como eu por que presunto, ou melhor, pressinto percebo estarrecido que, ano após ano, minha voz vem se tornando cada vez mais tênue e fina e as pessoas rudes entendem isso como sinal de bichisse e pensam que eu Sejaumgay, coisa que eu detesto ser confundido não que tenha algum preconceito penso que isso é uma opção íntima e pessoal de cada um cadaum cadaum; nem tenho nada a ver com movimentos homossexuais ou passeatas, apenas tenho receio e certo enrijecimento da musculatura pélvica o que, muito provavelmente, me levou a separar-se do resto da humanidade, mas uma coisa nada teen a ver com a outra; pessoas tontas não sabem distinguir o verde do amarelo, o rosa do vermelho ou do carmim e assim por diante, de modo que ando falando mais fino que muita mulher, o que, muitas vezes, me leva a nem sequer abrir a boca, tamanho é o pavor que sinto de que possam confundir tudo e resolvam (os artistas plásticos de plantão) me colocar numa sacolinha do Pão de Açúcar e atirar ao mar, juntamente com suas garrafas pets e afogar tartarugas latas vazias de cerveja, que são diariamente atiradas através das janelas dos ônibus em movimento nas rodovias estaduais, e mesmo no perímetro metropolitano causando ainda graves acidentes, e depois vem aquele rapaz usando um vestido branco, alto, magro, cabelos castanhos e diz que o culpado sou eu, por que estou falando fino demais, e que muito provavelmente, só por isso, eu seja um leigo, apenas a dona Leda me compreende, por isso lhe faço confidências e companhia quando, ao meio-dia, ela sobe ao andar mais alto do prédio e ficamos ali juntos, só nós dois, sentados num galho, confabulando, ela, que é evangélica, e eu, esse sem-vergonha que vocês já conhecem, e falamos sobre a vida ela me diz que ninguém respeita seu tipo físico fransino e sua origem nordestina, então eu lhe pergunto o que ela acha da minha camiseta lilás; ao que ela se desespera e diz que acha legal, que é pura bobagem as pessoas ficarem assim, dizendo que é coisa de viado então eu repito como um papagaio “belesma, dona Leda” e ela me oferece um pedaço da sua banana e eu lhe dou um pedacinho do meu chiclete, muito embora lhe diga que só coma mamão papai e que a banana dela é muito ácida e ataca o meu estomago de andorinha e que eu sofro de hemorróidas, ao que, ingenuamente, ela pergunta “onde?”, ao que eu lhe respondo que isso não lhe interessa que não é para ela ficar enfiando sua tromba onde não é chamada.
Campinas tem muita música ao vivo nas praças, mas o que me faz sofrer muito é ver que também há muitos mendigos e outros alienados viciados em pedras e crack caídos pelas calçadas, em número que considero elevadíssimo, tratando-se de pessoas que padecem de algum tipo de doença e que não falam coisa com coisa, mas alguns não são sequer mendigos, são apenas indivíduos desconectados da realidade oficial, ou antes, do sistema, e que não querem participar de nada, não querem trabalhar, não desejam consumir, se comunicar, não desejam nada, apenas fumar beber e dormir o dia todo pelas praças e ruas, inclusive muitas crianças e velhos, o que, em contrapartida a essa situação caótica, fez com que surgissem algumas entidades filantrópicas ONGs que os assiste, oferece sopa, roupas, agasalhos e o que é mais notável, algum tipo de atenção e carinho para toda essa gente que, de certa forma tem algo a ver comigo porque eu sou assim, odeio pessoas estúpidas, mórbidas, muito embora carregue em meu DNA uma estupidez zen, herdada do meu pai, que mais parecia um Miura, e dou patadas a torto e direito em pessoas que se comportam como baratas tontas, que não sacam o lance, que apenas repetem em seus discursos o que vêem na mídia oficial, ou ficam gaguejando, falando é...é...é...hum... é...hum.. antes de iniciar uma simples frase, e, depois, não dizem nada “Ah! quer saber" - eu penso, "vão se foder; tomar Crush" – porém sou incapaz de chifrar uma criança, por isso saio logo de perto desses bichos escrotos, e me aparto de todo mal. Fico então imaginando se seria possível a uma pessoa, cega de nascença, fazer cálculos matemáticos complexos, resolver equações, raízes quadradas, teoremas. Imagino que não. Desligo o rádio, que falava sozinho na sala, e desço de elevador, de volta às ruas; passo pela portaria e observo as jibóias dançando nos vasos dependurados no teto e o seu Joaquim, como sempre, debruçado sobre um Jornal do Brasil, com os cotovelos apoiados sobre o balcão de madeira, lendo a página de esportes a seção mundo, fazendo palavras cruzadas, sem tirar o olho esquerdo do jornal, relinchando seus dentes e, sem tirar o olho direito do relógio em seu pulso, diz “bom dia”, de forma anestesiada num tom horrivelmente anasalado, que chega até mesmo a ser medonho para mim, para não dizer ou escrever horripilante, eu quase lhe faço um gesto obsceno com o dedo (vai se foder, velho!) mas apenas lhe dirijo palavras paroxítonas não sei se levam acento, mas, desse Verbo DAR pretérito imperfeito, modo subjuntivo, terceira pessoa do singular; DESCE verbo descer, presente do indicativo no elevador, terceira pessoa do signo solar aperto umas teclinhas mágicas e surge uma carinha. Na verdade não entendo nada sobre nada, apenas recorto e colo Ctrl c Ctrcl v e sinto um cheiro estranho de café e perfume barato no ar neste fim de semana então fim de papo
The Fumantz a banda de Jazz tocou novamente em Piracicaba esta semana e eu não fui lá para vê-la; que pena; depois do décimo capuccino descobri que posso entrar não só na Basílica de N.Sra. do Rosário, onde há uma porrada de imagens e velas acesas, mas também num Templo Votivo, localizado na rua de trás do prédio onde moro, e ali entrei e notei que se tratava de um enorme templo, só que despojado de imagens de santos mas apenas com vitrais maravilhosos e naves coloridas em tons pastéis e freiras tímidas usando vestes marrons e crucifixos no peito; rezei e só depois voltei ao escritório meio tonto e excitado, já quase preto e carregado por duas orelhas azuladas ao redor dos olhos e cumprimentei o porteiro, Sr. Joaquim, que, distraidamente ouvia uma modinha do Tonico e Tinoco num radinho de pilhas e nem me ouviu ou fingiu não ouvir, porém mesmo assim lhe falei bom dia. Junto à porta do elevador havia uma Mulher Maravilha aguardando, bem à minha frente, sem saber que eu odeio pessoas lentas que se comportam como baratas tontas, porque eu valorizo muito a percepção rápida e correta e não gosto de indivíduos que precisam ser atropelados para sair da frente é fácil e tristeen ao mesmo tempo escrever assim como uma bailarina que patina no gelo a uma velocidade espantosa, acima da velocidade da luz, quando o tempo e o espaço se tornam então relativos, odeio pessoas que se escondem atrás de uma mesa, de um pseudo trabalho, que fogem da vida e falam belesmas ao telefone e riem batendo punhetas mas não choram, não mandam beijos como eu.
Aliás, não gosto de dizer isso de como eu por que presunto, ou melhor, pressinto percebo estarrecido que, ano após ano, minha voz vem se tornando cada vez mais tênue e fina e as pessoas rudes entendem isso como sinal de bichisse e pensam que eu Sejaumgay, coisa que eu detesto ser confundido não que tenha algum preconceito penso que isso é uma opção íntima e pessoal de cada um cadaum cadaum; nem tenho nada a ver com movimentos homossexuais ou passeatas, apenas tenho receio e certo enrijecimento da musculatura pélvica o que, muito provavelmente, me levou a separar-se do resto da humanidade, mas uma coisa nada teen a ver com a outra; pessoas tontas não sabem distinguir o verde do amarelo, o rosa do vermelho ou do carmim e assim por diante, de modo que ando falando mais fino que muita mulher, o que, muitas vezes, me leva a nem sequer abrir a boca, tamanho é o pavor que sinto de que possam confundir tudo e resolvam (os artistas plásticos de plantão) me colocar numa sacolinha do Pão de Açúcar e atirar ao mar, juntamente com suas garrafas pets e afogar tartarugas latas vazias de cerveja, que são diariamente atiradas através das janelas dos ônibus em movimento nas rodovias estaduais, e mesmo no perímetro metropolitano causando ainda graves acidentes, e depois vem aquele rapaz usando um vestido branco, alto, magro, cabelos castanhos e diz que o culpado sou eu, por que estou falando fino demais, e que muito provavelmente, só por isso, eu seja um leigo, apenas a dona Leda me compreende, por isso lhe faço confidências e companhia quando, ao meio-dia, ela sobe ao andar mais alto do prédio e ficamos ali juntos, só nós dois, sentados num galho, confabulando, ela, que é evangélica, e eu, esse sem-vergonha que vocês já conhecem, e falamos sobre a vida ela me diz que ninguém respeita seu tipo físico fransino e sua origem nordestina, então eu lhe pergunto o que ela acha da minha camiseta lilás; ao que ela se desespera e diz que acha legal, que é pura bobagem as pessoas ficarem assim, dizendo que é coisa de viado então eu repito como um papagaio “belesma, dona Leda” e ela me oferece um pedaço da sua banana e eu lhe dou um pedacinho do meu chiclete, muito embora lhe diga que só coma mamão papai e que a banana dela é muito ácida e ataca o meu estomago de andorinha e que eu sofro de hemorróidas, ao que, ingenuamente, ela pergunta “onde?”, ao que eu lhe respondo que isso não lhe interessa que não é para ela ficar enfiando sua tromba onde não é chamada.
Campinas tem muita música ao vivo nas praças, mas o que me faz sofrer muito é ver que também há muitos mendigos e outros alienados viciados em pedras e crack caídos pelas calçadas, em número que considero elevadíssimo, tratando-se de pessoas que padecem de algum tipo de doença e que não falam coisa com coisa, mas alguns não são sequer mendigos, são apenas indivíduos desconectados da realidade oficial, ou antes, do sistema, e que não querem participar de nada, não querem trabalhar, não desejam consumir, se comunicar, não desejam nada, apenas fumar beber e dormir o dia todo pelas praças e ruas, inclusive muitas crianças e velhos, o que, em contrapartida a essa situação caótica, fez com que surgissem algumas entidades filantrópicas ONGs que os assiste, oferece sopa, roupas, agasalhos e o que é mais notável, algum tipo de atenção e carinho para toda essa gente que, de certa forma tem algo a ver comigo porque eu sou assim, odeio pessoas estúpidas, mórbidas, muito embora carregue em meu DNA uma estupidez zen, herdada do meu pai, que mais parecia um Miura, e dou patadas a torto e direito em pessoas que se comportam como baratas tontas, que não sacam o lance, que apenas repetem em seus discursos o que vêem na mídia oficial, ou ficam gaguejando, falando é...é...é...hum... é...hum.. antes de iniciar uma simples frase, e, depois, não dizem nada “Ah! quer saber" - eu penso, "vão se foder; tomar Crush" – porém sou incapaz de chifrar uma criança, por isso saio logo de perto desses bichos escrotos, e me aparto de todo mal. Fico então imaginando se seria possível a uma pessoa, cega de nascença, fazer cálculos matemáticos complexos, resolver equações, raízes quadradas, teoremas. Imagino que não. Desligo o rádio, que falava sozinho na sala, e desço de elevador, de volta às ruas; passo pela portaria e observo as jibóias dançando nos vasos dependurados no teto e o seu Joaquim, como sempre, debruçado sobre um Jornal do Brasil, com os cotovelos apoiados sobre o balcão de madeira, lendo a página de esportes a seção mundo, fazendo palavras cruzadas, sem tirar o olho esquerdo do jornal, relinchando seus dentes e, sem tirar o olho direito do relógio em seu pulso, diz “bom dia”, de forma anestesiada num tom horrivelmente anasalado, que chega até mesmo a ser medonho para mim, para não dizer ou escrever horripilante, eu quase lhe faço um gesto obsceno com o dedo (vai se foder, velho!) mas apenas lhe dirijo palavras paroxítonas não sei se levam acento, mas, desse Verbo DAR pretérito imperfeito, modo subjuntivo, terceira pessoa do singular; DESCE verbo descer, presente do indicativo no elevador, terceira pessoa do signo solar aperto umas teclinhas mágicas e surge uma carinha. Na verdade não entendo nada sobre nada, apenas recorto e colo Ctrl c Ctrcl v e sinto um cheiro estranho de café e perfume barato no ar neste fim de semana então fim de papo
Edward Dement voltou mais faiscant do q The Ants
